20/11/2009

Depois me agradeçam*.


Iiiiiii find myseeeelf in a hooooootHOUsee

*Eu gosto do muito do jeito como eu finjo que tenho visitas.
Esclarecida a dúvida (ou o obtuário).

Pensava que o nome era Herbert Richards. Não era. É Herbert (até aí eu estava certo) Richers. Esclarecida a dúvida (não que eu me importasse). Em muito má hora, podem dizer (não que eu me importasse). Mas, enfim, nunca é tarde. Descobri, hoje, aqui. Dúvida retirada, descanso em paz.

13/11/2009

Com algum freqüência alguém me diz que determinada coisa, para ficar pronta, só depende de mim. Não lembro de frase mais terrível.

12/11/2009

Sirva-se, gordo.

Ao contrário do que eu disse a dois posts atrás, este blogue tem uma idéia fixa, imóvel, intacta, resitente a queda e que, se estimulada, brilha no escuro: a gula é uma questão de parâmetro. Por exemplo: a companhia. Se formos a um restaurante com um sujeito magro, casto do garfo e que se alimenta de 1/8 da porção de salada, somos violentados pelo sentimento de culpa; mais: pela figura real da castração gastronômica. Saímos de lá aflitos pelo que comemos e, ainda assim, por causa da boa educação, com fome. Já um gordo nós coloca em par de igualdade. Enfim, um sujeito gordo nós deixa mais à vontade. Por isso, um garçom gordo é o homem certo na profissão adequada. Dá-nos a liberdade por não ter remorsos estéticos futuros e é sempre capaz de escolher a melhor comida (um magro convicto, ao contrário, parece sempre alguém que vai nos catequizar como uma nutricionista vigilante). Dia sim, dia não, almoço numa espelunca aqui perto de casa. A comida é ótima. E sou servido pela melhor fração da humanidade em termos de apresentar a refeição: um garçom gordo. Vocês já tinham pensado na importância disso?

10/11/2009

Hipopotomonstrosesquipedaliofobia.

Ironia é o fato de hipopotomonstrosesquipedaliofobia denotar o medo de pronunciar palavras grandes; e zelofobia, medo de foder.

Nota: 80% dessa lista correspondem a medos que eu visivelmente possuo. 20% são medos conflitantes em que foi preciso escolher um.

09/11/2009

Últimas oito rodadas.



Nikolai Valuev (ou Golias, a besta.)

29/10/2009

Perfil.

Não tenho uma só idéia fixa. Na melhor das hipóteses, tenho temas instáveis que operam reagrupamentos e estabelecem nexos entre si de várias naturezas e resultam em princípios quebradiços mais ou menos gerais. É tudo muito crocante e delicioso, mas eu sofro a beça com isso; acreditem. Ora pondero uma coisa, ora outra. Num determinado momento do dia, individualmente, instituo uma verdade absoluta; mas à noite, do mesmo dia, quando tenho muito sono e pouca boa vontade, estabeleço outra. E no instante que uma delas ocupa todo o espaço de reflexão e análise, os danos e as trepidações começam. Quando os dois lados de uma idéia se tocam, tremo. Tenho desprezo pela idéia estanque. Gosto de culpar a idade por isso, mas já está na hora de esquecer esse agasalho confortável. Esquerda, direita? Liberal, conservador?Não me perguntem sobre isso se querem manter o meu intenso apetite para o miojo com atum e azeitona que eu consumo quase diariamente - que esperavam? moro só - intacto. Daí em diante, não consigo dizer uma única palavra seqüestrada de uma fonte segura sem sentir desconforto. Fico mesmo muito mal. (Bom, na verdade não é tão grave assim, mas eu gosto de por as coisas nesses termos.)

27/10/2009

Duas décadas de eternidade.

Boa parte do argumento desse post* do Odorico só funciona se tivermos em mente a idéia de que o leitor do presente tem uma relação, vá lá, sub-ótima se comparado ao leitor do futuro. (Ou se dermos ao Odorico o desconto do ‘wishful thinking’ bem elaborado – que é o que eu na verdade aconselho). No geral, é uma idéia involuntariamente otimista que, infelizmente, não é assim tão fácil de sustentar sem a ajuda de um andador retórico.

De algum modo, o que eu queria agora, para ilustrar e dá seqüência a esse raciocínio, era lembrar quem foi o sacana que disse, numa entrevista recente, que ‘a última música a ser lembrada’ num longínquo futuro de milênios e sofridas catástrofes mundiais ‘será talvez’ o ‘parabéns para você’. (Até hoje eu a atribuo ao Tom Waits, mas não estou certo disso). É uma imagem convincente e até certo ponto mais palpável do que a creça de que daqui a 40 anos, com a ação encantada do tempo sobre a lombada dos livros importantes, todos iremos ler as mais belas e bem elaboradas e ainda mais imaginativas e igualmente grandiosas obras da nossa pródiga-literatura-universal. Enfim, só disse isso para chegar a linha do tempo desenhada pelo Odorico e relatar que ela não leva em conta, por exemplo, que um livro do Saramago editado a vinte e tal anos atrás, ou mais, como o ‘Memorial do Convento’ ainda tenha saída em qualquer canto do mundo. Agora, se isso se vai esticar para os próximos 20 anos, partindo de uma análise ex ante completamente inaplicável à literatura, é uma hipótese aceitável que, no entanto, é dificilmente comprovável. O que se pode dizer ao certo é que, na verdade, ninguém fucking sabe.

Mas, convenhamos, isso importa?

Talvez seja um argumento contra-intuítivo, contudo tenho para mim que um autor “imortalizavel” não quer dizer que ele não possa tombar na primeira dobra de uma década e ser enterrado como indigente numa vala comum, junto com alto escalão da linha best-sellers da atualidade para, talvez, ter o fossil resgatado por antropólogos na década seguinte. 'Imortalizavel' é mais uma característica inserida no tempo do que uma possível 'eternidade garantida'. (Agora, vão lá entender isso.)

Disse isso aí acima, mas ainda não cheguei ao Saramago propriamente dito. Então, deixemos o argumento do Odorico por aqui e vamos a ele.

Não sei se acontece com todo mundo, mas tenho uma estante de livros que, se olhada por certo ângulo, nega cruelmente a minha pessoa jurídica atual. Digo: tenho, tirando por baixo, uns oito (08) livros do Saramago (algum dia, quando eu o vir, se eu o vir, espero que ele retribua essa gentileza, que se arrasta a mais de 5 anos, pagando a quota extra** do meu condomínio que se atrasada a mais 5 meses). Apesar disso, contra toda lógica ao meu alcance aplicável a minha pessoa, ainda, de tempos em tempos, pergunto-me se hei comprar a mais nova pérola desse Senhor, digamos, rumoroso. Não sei. É possível.

(Mas divago. Voltemos, pois, ao Saramago.) Há um argumento que geralmente é direcionado contra Saramago que consta na minha lista pessoal dos casos da esquizofrenia e doublethinking. Vejamos: Esse Senhor anda por aí proselitisticamente apregoando o ‘mal intrínseco da Bíblia’. Isso é realmente irritante, admito. Mas a minha pergunta é bastante mais ingênua e repetitiva: e isso importa? Vamos lá, a Flannery O´connor não resiste sequer 5 minutos se não tivermos no mínimo o bom senso de saber que ela era uma cristã fervorosa. Disse cinco? Reduzo: Três. Três minutos. E, novamente, isso importa? No caso dela, a resposta, em uni-som geralmente é ‘não completamente’; e o adicional a resposta é outra pergunta: de que maneira ela usa da capacidade literária para fazer livros? Quão criativa e genial ela pode ser? Malucos com a Bíblia embaixo do braço eu vejo vários pelo menos cinco vezes por dia – com o estranho acréscimo duas vezes dois a mais nos dias de chuva (não me perguntem). Já alguém com a capacidade narrativa da Senhora Flennery O´connor (opinião pessoal) eu nunca vi pessoalmente no meu trajeto para a faculdade. Agora, tentem repetir o mesmo argumento em relação ao Saramago: quantos professores de história irritantemente ateus é que vocês já viram na vida? Se forem do mesmo País que eu, presumo que muitos. E quantos pessoas com o talento (literário) do Saramago é que já viram por aí? Aqui, claro, as respostas já são diversas: 5, 10, 20, qualquer um ou nenhum (eu não vou responder). Mas a pergunta central acaba por ser essa: Mesmo com a ranzinza e chata retórica atéia e anti-capitalista, é Saramago um bom escritor? A resposta, acredito, será inconclusa. O Bloom e o James Wood***, por exemplo, dariam uma resposta diferente da do Odorico****. (E eu, mesmo sem revelar qual, daria uma resposta divergente dos três.) No fundo, eu gostaria de ouvir um Padre responder 'sim, apesar de tudo, Saramago é um bom escritor'. Mas, sabem como é, sinceramente, embora não conheça muitos padres, e seja contra as generelizações que eu mesmo produzo, eu quase que duvido.


* Eu juro que gostaria de começar com 'um amigo uma vez me disse', mas se foi o Odirico quem disse, foi o Odirico quem disse (que, aliás, eu não conheço e já peço que releve qualquer coisa)

**criada para ampliar o parque das crianças que não me deixam acabar a monografia.

***Não sei se isso significa algumas coisa. Não se trata de uma opinião superior; no fundo, é só uma catalogação de opiniões, digamos, conhecidas.

****Que eu suponho que seja ‘cara, desse tipo de panaca eu já vi alguns’. Aliás, uma resposta legítima já que a questão aqui não é o gosto do Senhor Odirico. Um gosto até, no geral, bastante, como é que eu vou dizer, sincronizado com o meu.

Nein, nein, nein!

- Se ela fala três línguas isso quer dizer que tenho chances triplicadas de ouvir um multilinguístico 'não'?
- Não sei. Mas, com certeza, duplica a possibilidade de você não a entender.
Vou tentar dizer isso numa frase: o Filthy Mcnasty é o melhor blogue nacional. Vão ver.

20/10/2009

Aprendizado.



Não vale a pena defender ninguém. O mercado tem falhas, o Estado tem falhas, a comunidade tem falhas e o indivíduo - nem precisava dizer - quase não tem qualidades. E a tragédia não acaba aqui: mesmo Deus, que se saiba, a dois mil e tal anos que não adota uma política intevencionista.

14/10/2009

Maitê.



Pequenas verdades.



[Também os anões começaram pequenos. 1970. Werner Herzog.]

12/10/2009

Make it rain.

07/10/2009

Ano após ano e a mesma rotina.

Uma pessoa é capaz de pensar em todas as possibilidades de fracasso - menos na que vem a seguir.

06/10/2009

Bad mood.

Ainda não é caso para pílulas, mas já passou perto. Tomando como referência os últimos posts, o blogue está, digamos, numa fase em que uma análise ligeira recomendaria a audição de Enya greatest hits, ou discos com silvos de pequenos pássaros silvestres e sons de cachoeira intermitentemente interrompidos por uma voz de algodão duma garota-do-telemarketing dizendo "Agora, relaxe, respire - inspire" com a dicção açucarada de filme pornô dublado. Depois de amanhã volto ao normal - seja lá o que isso for. Quinta-feira. Convenhamos, se dois episódios do curb your enthusiasm não resolverem isso, nada resolve. E olha que são inéditos e com o elenco do Seinfeld. Até.
Fast, cheap, and good. Pick two.



Q: Do you have words to live by?

A: Jim Jarmusch once told me “Fast, Cheap, and Good… pick two. If it’s fast and cheap it wont be good. If it’s cheap and good it won’t be fast. If it’s fast and good it wont be cheap”. Fast, cheap and good… pick (2) words to live by.

Tirado daqui.

E o Pastiche, claramente, carrega no fast and cheap.

05/10/2009

04/10/2009

Nada de suspensão da ordem natural.

Esse blogue, e também o seu autor, são reacionários. Mas tenham calma. Não vale a pena o susto. Explico: Este blogue e o seu autor são reacionários na medida que reagem instintivamente contra si mesmos. São, digamos, reacionários ao espelho.

02/10/2009

Então é isso. Será daqui a 7 anos. No Rio.

Larry David.

Assisti todo o curb your enthusiasm até a sexta temporada. Agora, começa a sétima. Ontem, assisti dois episódios baixados via torrent. É incrível como aquilo ainda funciona. No primeiro episódio achei que, de algum modo, fosse empacar. Ninguém pode encontrar piada sempre no quotidiano, com tanta freqüência, desse modo. Na verdade, achei que o programa ia descer um degrau e esbarrar num patamar médio de graça per minuto bastante estabilizado. Dado nível (alto) de genialidade de Larry David, mesmo nesse caso dava-me por satisfeito. Não e pelo contrário. O segundo episódio é ainda mais denso em piadas, observações, pequenas situações inusitadas. Larry David não é só engraçado e sagaz - é engraçado e sagaz muitas vezes em 30 minutos. Até assusta. É uma maratona espetacular. O curb your enthusiasm consegue ter o roteiro mais bem acabado que eu conheço no que diz respeito a sitcons. Não há uma falha lógica, mesmo que a premissa principal seja o improviso. Desde o momento, por exemplo, que Jeff, pouco antes de um jantar, conta que viu a namorada de Lewis fez-lhe um trabalho de sopro e logo a seguir ela, a namorada, na mesa de jantar, oferece a Larry uma bebida do seu copo (e Larry recusa-se não só a beber do copo, mas como também a trocar os dois beijinhos de despedida no fim do mesmo jantar), até o momento em que Lewis exigi que Larry peça desculpas, e ele diz resignado: "Boy, there probably was your semen on her lips. Yeah, second hand semen" não há absolutamente nenhum espaço vazio.
Jackpot.

2016? Será? Não sei. Não é um voto, ou uma expectativa, falo por falar, como quem aposta consigo mesmo a respeito da cor do próximo carro que vai passar; enfim: Apesar do Brasil estar otimista e achar que será escolhido, eu acho que será escolhido. Fica registrada a observação, com os dedos descruzados. É bom? É ruim? Ainda não pensei nisso.

01/10/2009

Esse blogue é feito com 60% de fracasso a primeira tentativa, 30 % de fracasso a segunda tentativa, nonsenses e obviedades; quase nenhum esforço; e, finalmente, 9% vem em peso na consciência. Num dado momento, tive que escolher: ou tinha pouco peso na consciência, ou fechava as portas.

Footnote: Mais uma vez, em casos gerais, ou em termos restritos, esse individuo tem razão.
Shame.

Deus salve o botão de editar postagens (o pequeno lápis amarelo embaixo de cada post) deste blogue. Juro que não sei como escrevo certas coisas.
Processo criativo.

Faulkner tinha uma opinião muito interessante sobre o processo criativo: Segundo ele, a personagem surge espontaneamente e, depois de nascida, ganha vida e identidade próprias. Sua tarefa limitava-se unicamente a segui-lá e tomar nota do seu comportamento. Concordo e até acho que, em certos casos, é ela, a personagem, quem nesse processo devia ir atrás dum escritor melhor - e não deixar nota nenhuma.
I´m just a Red nigger who love the sea,
I had a sound colonial education,
I have Dutch, nigger, and English in me,
and either I´m nobody, or I´m a nation.

Derek Walcott.

30/09/2009

Convenções

Você acorda pela manhã, faz a barba intensamente grato porque você não está ressaquiado como um títere inarticulado depois de uma festa cuja única saída seria comprometer o dia seguinte e beber como se não houvesse amanhã para suportar a si mesmo e a maciça inexistência do individuo Vicente, afundado nalgum sofá de canto, na festa. Nisso, alguém liga. Você, enquanto seca o rosto (um pé calçado, outro não), atende o telefone. Então alguém pergunta o porquê de você não aparecido na festa, mesmo estando em Salvador, tão perto, na casa da sua tia. E você responde : Porque não me chamaram. E, de repente, ninguém fala nada. Você troca o telefone de orelha. Do outro lado, nada; nem deste lado - por alguns segundos. Ela pensando em uma desculpa razoável e você grato por não ter ido; mas ansioso a espera da desculpa. E ela se desculpa. E você: Ok. Tudo bem. Fica pra próxima.
Influenza.

Sala de espera do dentista. Vou em direção à sala para ser atendido. Escuto essa pequena confissão inocente escarrada pela boca de uma senhora: "Se o estupro for inevitável, enjoy it". O inglês metido ali no meio me enoja, porque é banal; a expressão do rosto me apavora, porque é alegre; e o sotaque me dá nos nervos, porque é paulista. (Há sempre um sotaque paulista nos meus pesadelos.) Tenho todas as razões do mundo para não gosta dessa (20 anos?30?40? que idade tem?) mulher. A antropologia está comigo. Vocês iam entender - se fossem como eu. O pior não é ela em si, a pessoa banal que ela representa, e sim a proximidade entre o seu argumento e algumas crenças que tenho comigo: "Se a influência for inevitável, enjoy it". Enjoy it, sim, sim. Mas como?




28/09/2009

Depois das náuseas marítimas, das formalidades monárquicas, do anonimato reconhecido, o Naufrágio.

Piloto (século XVI). Do pouco que se conhece sobre a vida deste piloto da segunda metade de quinhentos, sabe-se que em 1565 participou na expedição de Diogo Carreiro, que explorou o rio Níger até Tombuctu. A viagem é relatada pelo próprio Carreiro numa missiva dirigida a D. Sebastião, na qual louva a acção de Fernão Vicente.

Tirado daqui.

De um disco que acabo de ouvir: "23" do Blonde Redhead. Aliás, um disco bastante bonito.

24/09/2009

O Jogo de ontem.

Ontem, no jogo entre o cruzeiro e o palmeiras, foi possível ver o famoso juiz gatuno em posse da sua desumana incapacidade profissional. Qualquer coisa tão Nelson Rodriguiana, como a muito tempo não se via. Secretamente eu achei injusto. Mas, ainda mais secretamente, eu gostei. Contudo, o que eu queria apontar aqui é que quando era o Corinthians, time do Pastiche, o centro desse tipo de acusação, todo mundo dizia que isso é uma máfia e não sei quê. E era verdade. Enfim, mas era tudo feito com rigoroso respeito à máfia, russa no caso, essa respeitosa instituição.
Uma das maneiras de fugir dos dois adjetivos sequenciados (frágil e pequena, longa e confusa, certo e inevitável) é pôr uma vírgula antes do segundo, fingir que não viu e assoviar de lado. Mas também não funciona.
Literatura brasileira.

Há uma diferença entre perder tempo (esporte simples, fácil, divertido) e desperdiçar tempo, pelo menos para mim, que tirava um honoris causa com facilidade (de que outra maneira poderia ser?) nessa área. Perder tempo envolve não fazer nada solenemente estabelecido, o que conduz a gastar o tempo com leitura, ou ouvir música, ou ambas as coisas, por exemplo. É saudável e recomendo. Já desperdiçar tempo envolve de algum modo estudar literatura brasileira. Dito assim, talvez soe ofensiva, a frase. Obrigar que ensinem (e aprendam) somente literatura brasileira nas escolas, quero dizer. O fio condutor desse pensamento é quase todo ele dedutivo: na melhor das hipóteses, a Literatura brasileira, isolada do resto do mundo, nem é literatura, nem é brasileira na sua totalidade. Temos bons escritores, escritores moderados, sujeitos esforçados, tipos talentosos, vários datilógrafos e um ou dois gênios, por aí, escondidos por traz dos arbustos, envergonhado dos modos da companhia. Falta o escritor que tenha mudado de-modo-considerável-a-maneira-de-escrever. Não é caso para choro. No máximo, há por aí os que mudaram o modo como os conterrâneos escreverem - para o bem ou para o mal. Fazem bem e eu gostaria que prosseguissem no esforço. Nunca, no entanto, num raio circunscrito, superior aos limites do nosso próprio país, via de regra, um escritor da casa fez parte dos pesadelos na vida de um escritor jovem - fato essencial para canonização do tipo que invade a consciência alheia. Uma pessoa de bem pode nunca ter tocado num livro brasileiro - e há, muitos e bons, no estrangeiro - e ser um grande escritor. Em resumo: O que essa política nacionalista produz é aborrecimento: aborrecimento do professor, obrigado a ampliar o reduzido; aborrecimento do aluno, pressionado a senti-se confortável com poetas sensaborões; e aborrecimento pessoal , o meu, que ando corrigindo uns exercícios de alunos do segundo grau para minha colega e sou obrigado a saber o contexto histórico em que se insere Iracema, de José Alencar - José Alencar -, e fingir que isso importa para Literatura. (Não que eu tenha nada a ver com isso da literatura).

Enquanto não escrevo nada, vejam isso. Daqui a pouco volto.
Orgulho criativo

Só a mediocridade é que, não tendo o domínio mínimo da técnica, não se importa com a platéia. A mediocridade tanto no sentido natural, ou seja, mediano-contete quanto no sentido pejorativo. Digo, alguém que na música, por exemplo, ainda não sabe o essencial, mas mesmo assim convida os amigos para ver.
O Astigmático.

Quando começo a ver vultos, sombras, imagens distorcidas, alucinações, tudo isso, ao invés de dar entrada numa sanatório para reabilitação ou juntar-me ao conjunto de drogados clínicos, eu apanho a uma agenda telefônica na messinha da sala e digito no telefone o número do oftalmologista da família. Não sou cocainómano; sou apenas um cidadão cuja lente de tempos em tempos ou cai para o lado ou não dá conta de fazer ver. Necessário compra um par novo. Refazer exames, primeiro; nessa ordem. Porque desde iniciei na escola primária, e lá vão não sei quantos anos, que recomendaram o uso dos óculos, cuja receita com o grau relativo a cada lente só aumenta ano após ano. Cinco e cinco e vinte cinto, esquerdo e direito, respectivamente. Miopia e astigmatismo.

A máquina que verifica o tipo de lente que me é recomendada continua muito semelhante à dos tempos de infância, adolescência e juventude. Há áreas que a tecnologia simplesmente não chega. Com as pupilas dilatadas, sentado numa cadeira similar a da barbearia, uma senhora troca as lentes, numa máquina tirada dos filmes do Terry Gilliam, a procura da que se adapta melhor a minha cegueira congênita. O texto é o decorado e suspeito haver uma cadeira acadêmica nesse tópico na pós-graduação em oftalmologia. Assim ou assim? Desse jeito ou desse? Melhor assim ou assim? Agora, ou antes? e nunca se repete a mesma pergunta; ou melhor, não a repete da mesma forma no espaço de duas horas, como pude observar; é um esforço vocabular sem precedentes. Há tempos que eu venho aqui e sou confrontado com a mesma série de questionamentos. A parte a isso, tenho para mim que o método não é o melhor: a escolha, qual que seja, é em parte subjetiva. Temo haver um excesso de responsabilidade imposta a uma pessoa comum, analfabeta em termos da fisiologia ótica. Depois, canso-me fácil com o processo; daí para dizer qualquer coisa não demora nada. De certa maneira, é como se se estivesse me dizendo Olha, eu até estudei não sei quantos anos isso, mas agora estou inseguro: a responsabilidade é sua. A oftalmologia cada vez mais parece uma sessão religiosa - e menos a prática do que a ciência poderia ser. Ao fim, tenho uma receita para um novo conjunto de lentes e dessa vez a alteração foi apenas de zero vinte cinco graus de astigmatismo no olho direito - o mais cego dos dois.

"Cirurgia?" Essa pergunta sempre derivou numa imagem muito parecida com a cena de Buñuel no cão andaluz. É uma passagem grosseira: uma lâmina cortante que percorre o olho; agressiva, é certo, mas medos são medos. Rejeito cortesmente. "Posso operar um olho e depois o outro?" Não, porque o plano de saúde não cobre o procedimento desse modo e conseqüentemente sairá mais caro. Sendo assim, então fica para próxima.

Com óculos estava, com óculos permaneço. O próximo passo é adquirir novo par. Aborrecimento completo. De alguma maneira, o conselho do Gustavo Nagel* - valioso conselho - serve também nisso das lentes. Armação de fibra, preta, como a de um pequeno ser martirizado pelo bullying na infância? Não. Fico com aquela de aço, bastante parecida com a última armação que tive ano passado e que ainda por cima não ofende nem assusta ninguém; é resistente e confortável. Sou bastante conservador nisso eu também.

*Nota: às vezes acho que devia linkar menos o Gustavo; exatamente por causa do princípio de incomodar menos as pessoas. Embora o blogue dele seja bastante proveitoso nesse sentido.

21/09/2009

Um conhecido disse que escrevo muitos posts e que não dá tempo para ler tudo. Esse pegou a idéia da coisa.
A história do mundo está dividida em duas partes: As pessoas bacanas e as pessoas chatas. Mas são partes desiguais.
A narrativa do mundo está separada em dois lados: Aqueles que pediriam para eu parar com isso e aqueles com senso de diversão. Os primeiros não existem e o segundo sou eu.
A história do mundo está separada em duas bandas: Acima do Equador e abaixo do Equador. Quem apóia Rafael Correia está claramente abaixo.
A história do mundo está dividida em dois tipos de pessoa: As que reconhecem a Bahia no mapa e as que a pintam de azul. As duas são baianas.
A história do mundo está dividida em duas metades: Antes e depois do acordo ortográfico. Mas ninguém reparou ainda.
Num texto, escrevi a palavra complacência querendo escrever condescendência. Fui ver e descobri que complacência é um termo científico. Tem quem chame isso de dislexia; amigos, eu chamo a isso arte.
A história do mundo está dividida em duas fatias: A contada pelos mentirosos detalhistas, por um lado; e a contada pelos sem imaginação, por outro. Os primeiros escrevem melhor.
A piada do patriarca, do maluco, da preta e da matriarca sobre um enterro distante.

Estavam quatro nordestinos no carro: O patriarca, a matriarca, uma preta e um maluco; todos a caminho dum enterro. A preta disse "É por aqui" no que o maluco rebateu energicamente "Acho que não" mas a matriarca deu razão a primeira, por causa das quotas. O patriarca guiava calado. Como não achavam o caminho, o maluco não parava de dizer "Eu disse, eu disse, não disse?" mas os doidos sempre dizem isso. A preta pediu que o maluco ficasse quieto que ela acabava de ter outra pista divina. "Lembrei, lembrei. Pronto, é por aqui" disse ela para a matriarca. A matriarca, que falava sozinha em voz alta a respeito da senhora falecida, por sua vez, passou a informação errada para o condutor. O patriarca, que conduzia mudo e, em tempos, surdo também, por sua vez, tomou uma terceira via, como o Tony Blair. Momentos depois, o maluco disse "Porra, mãe, assim não vamos chegar nunca" porque o maluco também era um visionário. "Cala boca e respeita o luto" respondeu a mãe. Cinco horas depois, a matriarca achou uma trilha familiar, intima, reconhecível, na rodovia. A preta, assutada, disse "Eu não lembro de ter passado por aqui na ida; só na volta" e o maluco disse "Filme policial americano. Quinze letras. Alguém sabe?", mas ninguém lhe deu ouvidos. O patriarca então, pela primeira vez, rompeu o misterioso silêncio com um berro seco (que infelizmente não era uma resposta ao maluco):

- Pronto! pronto! Ahrá, aqui, aqui! Achei!
- Ué, Chegamos? Pergunta a matriarca.
- Não, mas daqui eu sei voltar sem erro. Respondeu o patriarca.
- E o enterro, homem? Não vamos chegar a tempo. Disse a matriarca.
- Foda-se. Quero saber. Nem conhecia ela direito. Descanse em paz no quinto dos infernos. Digo que o maluco estava doente e que nós não pudemos ir.
- Já sei. Caramba, como é que eu não lembrava? Tão fácil. Disse o maluco marcando o papel com força.

Moral da história: todos voltaram felizes do enterro: Meu pai, eu, minha irmã e minha mãe.

17/09/2009

Carta aberta a minha professora de português do primário:

Professora Dona Corina, obrigado pela correção e me desculpa por ainda não dominar a diferença entre escrever num português correto e escrever num português parecido com o que falo.

Com carinho, do seu aluno mais relapso,
Vicente

Tive uma namorada que ia adorar ler isso nesse lugar e depois ouvir de mim isso. Mas no fim das contas, eu aprendi a gostar dessa senhora (o que eu não gosto é de dizer que gosto) mais que gosto hoje da minha (idem) ex-namorada - que Deus a tenha, se ela estiver morta; nunca se sabe.