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09/11/2009
29/10/2009
Perfil.
Não tenho uma só idéia fixa. Na melhor das hipóteses, tenho temas instáveis que operam reagrupamentos e estabelecem nexos entre si de várias naturezas e resultam em princípios quebradiços mais ou menos gerais. É tudo muito crocante e delicioso, mas eu sofro a beça com isso; acreditem. Ora pondero uma coisa, ora outra. Num determinado momento do dia, individualmente, instituo uma verdade absoluta; mas à noite, do mesmo dia, quando tenho muito sono e pouca boa vontade, estabeleço outra. E no instante que uma delas ocupa todo o espaço de reflexão e análise, os danos e as trepidações começam. Quando os dois lados de uma idéia se tocam, tremo. Tenho desprezo pela idéia estanque. Gosto de culpar a idade por isso, mas já está na hora de esquecer esse agasalho confortável. Esquerda, direita? Liberal, conservador?Não me perguntem sobre isso se querem manter o meu intenso apetite para o miojo com atum e azeitona que eu consumo quase diariamente - que esperavam? moro só - intacto. Daí em diante, não consigo dizer uma única palavra seqüestrada de uma fonte segura sem sentir desconforto. Fico mesmo muito mal. (Bom, na verdade não é tão grave assim, mas eu gosto de por as coisas nesses termos.)
27/10/2009
Duas décadas de eternidade.
Boa parte do argumento desse post* do Odorico só funciona se tivermos em mente a idéia de que o leitor do presente tem uma relação, vá lá, sub-ótima se comparado ao leitor do futuro. (Ou se dermos ao Odorico o desconto do ‘wishful thinking’ bem elaborado – que é o que eu na verdade aconselho). No geral, é uma idéia involuntariamente otimista que, infelizmente, não é assim tão fácil de sustentar sem a ajuda de um andador retórico.
De algum modo, o que eu queria agora, para ilustrar e dá seqüência a esse raciocínio, era lembrar quem foi o sacana que disse, numa entrevista recente, que ‘a última música a ser lembrada’ num longínquo futuro de milênios e sofridas catástrofes mundiais ‘será talvez’ o ‘parabéns para você’. (Até hoje eu a atribuo ao Tom Waits, mas não estou certo disso). É uma imagem convincente e até certo ponto mais palpável do que a creça de que daqui a 40 anos, com a ação encantada do tempo sobre a lombada dos livros importantes, todos iremos ler as mais belas e bem elaboradas e ainda mais imaginativas e igualmente grandiosas obras da nossa pródiga-literatura-universal. Enfim, só disse isso para chegar a linha do tempo desenhada pelo Odorico e relatar que ela não leva em conta, por exemplo, que um livro do Saramago editado a vinte e tal anos atrás, ou mais, como o ‘Memorial do Convento’ ainda tenha saída em qualquer canto do mundo. Agora, se isso se vai esticar para os próximos 20 anos, partindo de uma análise ex ante completamente inaplicável à literatura, é uma hipótese aceitável que, no entanto, é dificilmente comprovável. O que se pode dizer ao certo é que, na verdade, ninguém fucking sabe.
Mas, convenhamos, isso importa?
Talvez seja um argumento contra-intuítivo, contudo tenho para mim que um autor “imortalizavel” não quer dizer que ele não possa tombar na primeira dobra de uma década e ser enterrado como indigente numa vala comum, junto com alto escalão da linha best-sellers da atualidade para, talvez, ter o fossil resgatado por antropólogos na década seguinte. 'Imortalizavel' é mais uma característica inserida no tempo do que uma possível 'eternidade garantida'. (Agora, vão lá entender isso.)
Disse isso aí acima, mas ainda não cheguei ao Saramago propriamente dito. Então, deixemos o argumento do Odorico por aqui e vamos a ele.
Não sei se acontece com todo mundo, mas tenho uma estante de livros que, se olhada por certo ângulo, nega cruelmente a minha pessoa jurídica atual. Digo: tenho, tirando por baixo, uns oito (08) livros do Saramago (algum dia, quando eu o vir, se eu o vir, espero que ele retribua essa gentileza, que se arrasta a mais de 5 anos, pagando a quota extra** do meu condomínio que se atrasada a mais 5 meses). Apesar disso, contra toda lógica ao meu alcance aplicável a minha pessoa, ainda, de tempos em tempos, pergunto-me se hei comprar a mais nova pérola desse Senhor, digamos, rumoroso. Não sei. É possível.
(Mas divago. Voltemos, pois, ao Saramago.) Há um argumento que geralmente é direcionado contra Saramago que consta na minha lista pessoal dos casos da esquizofrenia e doublethinking. Vejamos: Esse Senhor anda por aí proselitisticamente apregoando o ‘mal intrínseco da Bíblia’. Isso é realmente irritante, admito. Mas a minha pergunta é bastante mais ingênua e repetitiva: e isso importa? Vamos lá, a Flannery O´connor não resiste sequer 5 minutos se não tivermos no mínimo o bom senso de saber que ela era uma cristã fervorosa. Disse cinco? Reduzo: Três. Três minutos. E, novamente, isso importa? No caso dela, a resposta, em uni-som geralmente é ‘não completamente’; e o adicional a resposta é outra pergunta: de que maneira ela usa da capacidade literária para fazer livros? Quão criativa e genial ela pode ser? Malucos com a Bíblia embaixo do braço eu vejo vários pelo menos cinco vezes por dia – com o estranho acréscimo duas vezes dois a mais nos dias de chuva (não me perguntem). Já alguém com a capacidade narrativa da Senhora Flennery O´connor (opinião pessoal) eu nunca vi pessoalmente no meu trajeto para a faculdade. Agora, tentem repetir o mesmo argumento em relação ao Saramago: quantos professores de história irritantemente ateus é que vocês já viram na vida? Se forem do mesmo País que eu, presumo que muitos. E quantos pessoas com o talento (literário) do Saramago é que já viram por aí? Aqui, claro, as respostas já são diversas: 5, 10, 20, qualquer um ou nenhum (eu não vou responder). Mas a pergunta central acaba por ser essa: Mesmo com a ranzinza e chata retórica atéia e anti-capitalista, é Saramago um bom escritor? A resposta, acredito, será inconclusa. O Bloom e o James Wood***, por exemplo, dariam uma resposta diferente da do Odorico****. (E eu, mesmo sem revelar qual, daria uma resposta divergente dos três.) No fundo, eu gostaria de ouvir um Padre responder 'sim, apesar de tudo, Saramago é um bom escritor'. Mas, sabem como é, sinceramente, embora não conheça muitos padres, e seja contra as generelizações que eu mesmo produzo, eu quase que duvido.
* Eu juro que gostaria de começar com 'um amigo uma vez me disse', mas se foi o Odirico quem disse, foi o Odirico quem disse (que, aliás, eu não conheço e já peço que releve qualquer coisa)
**criada para ampliar o parque das crianças que não me deixam acabar a monografia.
***Não sei se isso significa algumas coisa. Não se trata de uma opinião superior; no fundo, é só uma catalogação de opiniões, digamos, conhecidas.
****Que eu suponho que seja ‘cara, desse tipo de panaca eu já vi alguns’. Aliás, uma resposta legítima já que a questão aqui não é o gosto do Senhor Odirico. Um gosto até, no geral, bastante, como é que eu vou dizer, sincronizado com o meu.
20/10/2009

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